segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Barco em Noite Nebulosa

O relógio marca três horas. Mas o céu tá meio quieto, meio vazio, meio escorrendo, meio morrendo. É que tem dias em que tudo por aqui tá errado, e daí só olhando pro alto a gente percebe o tamanho da nossa vida.
Eu choro, mas meu patrão ainda me espera, meu pai ainda me espera, o relógio ri de mim e eu começo a me policiar, pra que essa droga de mundo não me transforme numa máquina de fazer dinheiro.
Ontem de noite, era quase madrugada. Choveu muito, muito mesmo. Deu vontade de tomar banho lá fora, e deixar a água levar tudo, tudo, tudo: o emprego, as roupas, a garganta doída de tanto segurar a lágrima pra não fazer barulho e não acordar ninguém, o medo. Mas eu fiquei no quarto, quieto, esperando o mundo falar comigo, e foram os pingos na folha velha da janela que me fizeram ver que eu é que tinha que falar com ele.

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já são quatro horas, querido. e daqui a pouco o sol vai aparecer e vai ter luz passando pela fresta da janela. a gente vai se dar conta de que passou a noite assim, acordado, falando de tudo que rolou. o cigarro tá acabando e a cerveja também. o mundo vai chegar assim, de mansinho, pegar no nosso pé e dizer que existe, gritar que o trampo te espera, as aulas me esperam, o metrô vai começar a passar. e já tem ônibus por aí. um barulho pavoroso.

se você topar. e só se topar.

eu tapo os ouvidos, esqueço a luz, e faço desse quarto nosso mundo pra dar pra mergulhar em você mais um pouco. a gente começa um caderno de desenhos, rasga as folhas, almoça um pacote de bolacha e dá risada. eu aceito seus presentes, seus sorrisos, seus beijos pausados e compassados, suas doenças todas, sem pensar. sem pensar mesmo. e me devolve seu ego amassado, quebrado, sozinho e sem ninguem. só tem nós dois.

entendeu agora o lance da solidão?

pra mim as coisas funcionam meio assim: eu vou cedendo, me doando, me perdendo, numa sequência de fatos que eu sei nonde vão dar, uma inocência de dar medo. eu esqueço de um perfume de que gosto, de uma comida comum nos finais de semana, de um caminho antigo que eu sempre fiz. até que numa tarde de domingo, na sua casa (a tv ligada baixinho), com a sua família brigando do meu lado, vou sentir falta do que tá lá fora, da chuva solitária, das ruas que eu ainda nem conheço. e bem caranguejo, pálido, duro, me esquivando, vou pegar o casaco. dizer que tenho trabalho da faculdade pra fazer. te dar um beijo e soltar uma risada. e sair pela porta, pensando que nunca mais volto pra lá.

e não volto. não mesmo. te apago da minha agenda, dos meus amigos, das minhas roupas. do meu mundo todo. e só tenho a lembrança; você. belo, risonho, lindo. a lembrança, fugidia. daqui a uns meses: como eram seus olhos? e as sobrancelhas? os lábios? aí então te reinvento perfeito, mágico, divinal, vestal. mais um amor. eu (não) sou o amor.

devaneio número 7

tive um sono perturbado, tremido. era noite. o ar era pesado, pálido, metálico, e tocava uma música mecânica muito alto e os meus ouvidos doíam muito porque a canção era uma faca afiada, de cortar o pensamento da gente em dois.

tudo parava. eu voltava pro colchão.

mas fechava os olhos de novo; e daí um rosto solto, sem corpo, branco feito aquela areia vazia de praia em agosto que gela até o passado, me olhava, investigava, procurava dentro de mim um medo qualquer pra botar pra fora. ele era eu. tinha muitos carros do meu lado. embaixo. em cima. por fora. por dentro. na cabeça. nos braços, pernas, olhos, correndo feito bicho de um lado pro outro.

a cama. os carros somem. estou no sonho ou aqui?

a cabeça vai pro travesseiro. ele devolve: uma cidade maldita, monocromática, seca, seca, seca. eu estava nela. eu estou nela.
ela me consome. e eu não sou mais eu: sou mais ela; inquieto, inexorável, ditador. complexo.

(todos dormiram mais cedo essa noite)